Contra o esforço heróico

by srecosta 1. abril 2011 00:42

Ah, o herói!

A sociedade ama a figura do herói: a maneira como eles se comportam, altruístas, dispostos ao auto-sacrifício pelo "bem comum" e pela "grande causa", sem pensar em si mesmos, ou em suas famílias, você conhece o tipo.

No nosso ramo (informática -> desenvolvimento de software) há muitos heróis, tenho certeza que você foi ou será um, eventualmente.

Você sabe, o herói é aquele cara que trabalha 60 a 80 horas por semana, também nos finais de semana e feriados, não tem tempo pra nada que não seja relacionado e ama o que faz. Tem que virar a noite? -Claro. Tem que cancelar compromissos? -Faz parte. Que cara comprometido! Pelo seu único esforço individual tudo está girando, sendo entregue no prazo e os clientes/empresa estão felizes.

É maravilhoso, exceto que não é.

Se você é um herói agora, entenda que você está mascarando problemas muito sérios usando basicamente força bruta.

Um volume de trabalho de 60 a 80 horas por semana significa:

  • Você está fazendo o trabalho de várias pessoas (ou por falta de pessoal ou porque você está assumindo tarefas / responsabilidades que não são suas).
  • Você está gerenciando mal o seu tempo (ou por não priorizar as tarefas - tudo é urgente e crítico - ou por considerar que o seu dia tem realmente 16h de trabalho).
  • Você está super-estimando a sua capacidade de entrega (aquela tarefinha de dois dias já testada se transforma em 30h de trabalho extra no final de semana).
  • Você não está trabalhando com eficiência (sério, não mesmo).
  • Sua vida está desbalanceada (você não dá às outras áreas da sua vida o mesmo tratamento e seus familiares são penalizados - quantas vezes você deixou de jantar em casa com a esposa ou sair com os seus amigos?).
  • Você faz girar a máquina do XGH*.

E a lista segue. Todos os bons (e os heróis) morrem cedo, veja só.

Comentei antes que a empresa está feliz por ter um herói em seus quadros, certo? É verdade, mas isto não dura. Mais cedo ou mais tarde, a empresa percebe alguns destes sintomas:

  • Nem todos são heróis então seus colegas se chateiam contigo porque você eleva as médias a níveis muito altos (infladamente, de certa forma, já explico). Se todos entregam X tarefas por dia/ por mês, você entrega o dobro. Como competir? Não dá, e o clima na equipe fica tenso.
  • Não necessariamente você é mais produtivo (alguém que faça a tarefa em 40h é mais produtivo se você levar 60h, ainda que vocês tenham entregue no prazo).
  • Dificilmente a empresa paga hora-extra então eles precisarão prever um passivo legal em seu nome (vai que** você decide cobrar estas horas na justiça?).
  • Quando você fica doente (e você ficará, pois apesar de herói você não se chama Clark Kent), a empresa para. Procure por burn out no seu buscador favorito, é esclarecedor.

Ao longo do tempo, a empresa perceberá isto e tomará uma destas três atitudes: mudar seu comportamento, ou fingir que não percebeu (um herói é lucrativo grande parte do tempo por fazer o trabalho de várias pessoas) ou te substituir. A vida é dura!

Entenda também que nem todo esforço heróico é necessariamente ruim. Quando as condições exigem, por um tempo, e apenas por um tempo, manter uma rotina destas pode ser benefíco para o seu crescimento e o da empresa em que você está. O truque é que isto seja uma exceção, e não seu jeito de viver.

E eu com isso?

Verdade seja dita, sempre fui um herói, por n motivos. A maior parte do tempo você nem se dá conta que é um, imerso em suas atividades, e tudo sempre parece extremamente importante, crítico e que realmente precisa ser feito.

Abrir uma empresa e construí-la do zero não ajuda muito neste sentido (e graças que eu sou só um dos co-fundadores) mas estando do outro lado do balcão, tive a oportunidade de descobrir isto e fazer algo a respeito (ainda estou fazendo, você acha que fica mais fácil quando você adora o que faz? não, não fica). O objetivo deste blog é compartilhar estas experiências.

Espero que ajude.

(*) Xtreme Go Horse, mas você sabia, certo?
(**) Momento "vai que" daquela empresa de seguros, adoro o comercial deles. :)

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Sobre o autor

Eduardo Costa, paulista, casado, co-fundador da Pakua e pai de quatro gatos.

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