Três pilares - Tradução de artigo do Martin Fowler

by srecosta 31. maio 2011 00:42

O Martin Fowler é um daqueles caras que você admira pela grande contribuição que deu (e tem dado) para a nossa área de trabalho. Ele já escreveu sobre refatoração, sobre padrões de projeto, sobre agile (bem antes de isto ter a dimensão que tem hoje) e agora sobre DSLs, e sempre de uma maneira bem profunda, que te faz pensar.

Acredito que grande parte do que ele escreveu nos últimos anos foi derivado do seu trabalho na ThoughtWorks, na qual ele é cientista chefe. No post abaixo, que traduzi do blog/wiki dele, ele comenta sobre os três pilares que sustentam a ThoughtWorks.

Acredito que vale a leitura. E desde já um mea culpa pelos possíveis enganos. :)

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ThreePillars

A ThoughtWorks é uma empresa incomum, o que é inclusive o motivo pelo qual um cara cético quanto a corporações como eu está aqui mesmo após uma década. Uma característica importante da ThoughtWorks é que nós temos uma visão mais ampla do nosso propósito do que simplesmente ser uma entidade comercial. Nos últimos anos passamos a utilizar um modelo de três pilares para descrever a maneira que gostamos de pensar sobre nós mesmos.

O modelo foi roubado da Ben & Jerry's - a empresa de sorvetes. Ele diz que existem três pilares para uma empresa: Negócios Sustentáveis, Excelência em Software, e Justiça Social [1]. Cada pilar tem sua própria definição de sucesso e para a empresa ser bem sucedida, ela tem de equilibrar os objetivos de todos os pilares. Embora os pilares não estejam fundamentalmente em conflito, eles estão frequentemente em tensão - e é aí que o equilíbrio entra. O pilar de Negócios Sustentáveis consiste em assegurar que temos uma empresa financeiramente viável. Nós fomos muito bem sucedidos neste quesito ao longo dos anos, razão pela qual ainda estamos aqui. Resistimos a duas recessões - e eu considero que o desempenho de uma empresa durante uma recessão é quando você realmente descobre o quão forte ela é comercialmente. Nós também crescemos muito na última década, de cerca de 300 pessoas nos EUA quando eu ingressei, para cerca de 1.800 globalmente agora. Então, parabéns para a nossa equipe de gestão operacional.

A parte comercial não é tudo, no entanto. Uma boa metáfora que uso é que receita é como oxigênio - você precisa dela para viver, mas não é o motivo pelo qual você vive. O pilar de Excelência em Software, em termos mais amplos, eu chamo de o pilar de Excelência Profissional. É sobre fazer o que você faz muito bem. Para a Ben & Jerry's isso significava como fazer um sorvete realmente gostoso, já no nosso caso é sobre ser realmente bom em entregar software de valor. Este pilar é o que ressoa muito comigo. É por isso que trabalhamos muito para melhorar continuamente a forma como fazemos as coisas. A Excelência em Software introduz algumas tensões interessantes junto ao pilar de Negócios Sustentáveis.

Nós somos uma consultoria muito difícil para nossos clientes. Nós chegamos forçando a barra para que os clientes mudem significativamente a forma como eles criam software, confiantes de que nossas abordagens são muito melhores. Isso cria muita turbulência com a equipe de TI existente. Lembro-me de Trevor Mather (nosso CEO) contrastando a ThoughtWorks com sua experiência prévia na Accenture. Ele comenta que a ThoughtWorks fez um trabalho muito melhor de fornecimento de software do que a Accenture, mas os clientes estavam muito mais felizes com a Accenture do que conosco. Um colega comparou-nos a um personal trainer do tipo linha-dura, o que nem sempre é uma relação fácil.

Outra tensão envolve nossos produtos. Nossa divisão de produtos muitas vezes tem que lidar com solicitações de recursos para coisas que nós não pensamos que realmente ajudam a entregar software útil. Por não implementá-las, perdemos em muitas avaliações de caixinhas, mas não queremos que nossas ferramentas reinforcem formas impróprias de trabalho. Além disso, o nosso pilar de Excelência do Software faz com que percamos muitas oportunidades de receitas com nossos parceiros. Muitas consultorias obtêm receitas consideráveis com parceiros, cujos produtos necessitam de muito apoio/horas de consultoria, mas apresentam pouco valor para os usuários.

Levamos nosso pilar de Excelência em Software um passo a frente, no qual não apenas queremos ser excelentes em entregar software, mas também queremos melhorar a indústria de software como um todo. Isto é o motivo pelo qual tantos ThoughtWorkers falam e escrevem publicamente sobre como nós fazemos as coisas e o que nós aprendemos. [2]

O pilar de Justiça Social é sobre prestar mais atenção em nosso impacto como uma empresa - estamos fazendo do mundo um lugar melhor? Há aqueles que acham que essa questão é irrelevante para uma empresa - um empreendimento comercial está lá para fazer dinheiro, ponto. Por esta ótica é OK vender qualquer coisa que qualquer um queira comprar, mesmo que isso prejudique o cliente e a sociedade como um todo. Eu não concordo com essa noção - Estou muito feliz de ganhar dinheiro, mas acredito que a receita deve vir de oferecer algo valioso para os clientes e a sociedade.

Para mim, o pilar da justiça social não é apenas trabalhar para uma boa causa, apesar de que temos feito uma quantidade cada vez maior de trabalho pago e também pro bono. É também sobre como olhar para o nosso trabalho e perguntar como isso beneficia a sociedade. Eu tenho uma visão abrangente sobre isto, de que vale a pena criar um software que faz uma empresa vender coisas úteis de forma mais eficiente. Melhorar as operações do mercado de carros usados nos EUA não é tão socialmente glamoroso como ajudar a encontrar crianças após um desastre natural, mas eu ainda acho que é parte do caminho que levou a uma maior prosperidade da humanidade nos últimos séculos.

O pilar da justiça social leva a um grande debate interno sobre trabalhar ou não para determinados clientes. Houve uma clara tensão com o pilar de Negócios Sustentáveis e também com o pilar de Excelência do Software por termos recusado projetos bem remunerados e tecnicamente interessantes porque sentimos que os clientes envolvidos não contribuiam para nossa visão de Justiça Social. Nós também perdemos muitos bons ThoughtWorkers para outras empresas nas quais o pilar de Justiça Social é visto como irrelevante e, portanto, nas quais eles podem perseguir os outros pilares de forma mais enérgica. Há também uma grande divergência entre os ThoughtWorkers sobre o que é socialmente benéfico e que não é. Eu estou contente de seguirmos uma política de respeitar os desejos das pessoas quando elas se recusam a trabalhar para um cliente que considerem socialmente irresponsável. Contudo, é muito difícil chegar a um consenso sobre essas decisões em toda a ThoughtWorks, especialmente à medida que crescemos.

Concentrei-me sobre as tensões entre os pilares aqui porque acredito que o equilíbrio entre eles possa ser interessante. Mas há também uma grande dose de reforço positivo entre eles. Muitas pessoas se reunem e permanecem na ThoughtWorks por causa da nossa atenção para a Justiça Social. Nosso foco na Excelência em Software nos permitiu desenvolver uma marca que torna mais fácil resistir às recessões. Muito do nosso trabalho com empresas sem fins lucrativos é feito na mesma velocidade que os projetos comerciais. Além disso, eu acredito que quando você olha a longo prazo, os pilares se reforçam mutuamente muito mais do que eles brigam entre si.

Nós pensamos que este modelo de três pilares é uma maneira muito eficaz de pensar sobre os múltiplos objetivos que temos como uma empresa. Enquanto estamos ponderarando algumas decisões, é útil pensar em como uma decisão parece vista de cada pilar como parte para se chegar a uma decisão consolidada. Mas há mais a fazer, particularmente em torno de avaliar como podemos julgar o sucesso de cada pilar. O pilar de Negócios Sustentáveis é um pouco mais fácil, pois você pode controlar os fluxos de receitas [3]. O desafio é chegar com avaliações semelhantes para os outros pilares, para que possamos ter uma visão mais holística do nosso progresso.

1: Internamente, muitas vezes referimos aos pilares através de números (que usávamos antes que os nomes surgissem): Negócios Sustentáveis é o pilar 1, Excelência em Software é o pilar 2 e Justiça Social é pilar 3. Os números não implicam qualquer ordenação.

2: A maioria das empresas de consultoria não fala sobre seu trabalho publicamente quando não há fins comerciais. Elas entendem que se perde muito dinheiro deixando as pessoas aparecerem publicamente em palestras ou conferências ao invés de mantê-las trabalhando. Também imaginam que seria tolo partilhar as principais técnicas com os concorrentes ou clientes em potencial que poderiam, então, utilizar estas técnicas sem a própria consultoria.

3: Mesmo isso não é assim tão fácil. Muitas empresas avaliam o seu sucesso comercial olhando para as finanças de curto prazo, contando pelos trimestres. Se você quer uma companhia que dure a longo prazo você precisa de medidores de longo prazo - e esses são difíceis de encontrar.

Link para o artigo original (em inglês): ThreePillars .

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Sobre o autor

Eduardo Costa, paulista, casado, co-fundador da Pakua e pai de quatro gatos.

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